• objeto ar, de débora gil pantaleão

débora gil pantaleão não para. como um bicho de sete cabeças, ela voa vorazmente sob os meros passantes enquanto escreve seus livros de poesia e prosa, organiza coletâneas, fica à frente de uma editora, aprofunda seus estudos em psicanálise e dramaturgia e ainda agita a vida cultural de sua cidade. débora emerge em uma medusa, provocando encantamento súbito em quem ousa se aproximar de seus escritos. eu suspeitava dessa teoria, mas com objeto ar pude ter a comprovação.

seu novo livro parte de um diálogo com clarice lispector, para evocar a transubstancialidade presente nas obras da autora canônica, através de uma intertextualidade que homenageia ao mesmo tempo em que ri da própria homenagem. aliás, rir de si é uma característica que débora sabe utilizar muito bem em seus poemas, já que a ironia, o humor (por vezes cáustico) e a ambiguidade dão o tom de seus versos e são incorporadas na estruturada calculada de seus poemas.

objeto ar é dividido em três partes: a primeira, marcada pelos versos de uma só palavra e pela ambiguidade instalada através do rompimento brusco dos versos ou mesmo de palavras; a segunda, pela coloquialidade e repetições com mudanças de sentido (em que a ruptura se dá no conteúdo, e não no aspecto formal); na terceira, há um afunilamento dos versos de cada poema, como se o corpo-objeto do poema estivesse, enfim, perdendo seu vigor, e se transformando, de fato, em ar. nesse processo de auto-antropofagia, o corpo dos poemas se rompem, se desmantelam e desmancham, como uma “ode à inexistência” (título de um de seus poemas), e mesmo que seja doloroso, essa fragilidade corpórea nos permite leitura provoque um gozo ambíguo, novo, curioso, leve, descobrindo o prazer do imaterial. até mesmo a ausência perde seu peso ao permitir o voo de seu acento por outras línguas.

como em livros anteriores de débora, a morte ainda pode ser sentida aqui (com certa leveza, é verdade), porém é o amor que transborda, como um fluxo recorrente em sua obra. como um pássaro, o livro ganha asas, foge de qualquer estrutura pronta, tem um fluxo intenso, um movimento que se sabe leve, mas que transforma em pedra o leitor distraído.

não é uma poesia feminista, lésbica, negra, vegana. ainda que tudo isso esteja emaranhado no meio daquelas formas tão distintas, sua poesia não carrega o fardo da militância e se distancia plenamente do panfletário. é poesia: mas é muito mais que isso. não é nada, mas nos deixa marcas abertas após uma breve leitura. é objeto, tem peso, materialidade, forma específica. mas é ar, e não se deixa prender em qualquer aspecto ou leitura limitante.

 

juliana goldfarb (em orelha).

DETALHES DO LIVRO

Origem: NACIONAL
Edição: 1
Ano: 2018
Assunto: Literatura Nacional (Poesia)
Idioma: PORTUGUÊS
País de Produção: BRASIL
ISBN: 978-859421315-0
Encadernação: BROCHURA
Altura: 19,00 cm
Largura: 12,5 cm

Nº de Páginas: 56

objeto ar, de débora gil pantaleão

  • Modelo: Poesia
  • Disponibilidade: Em estoque
  • R$ 35,00


Etiquetas: Poesia